“Não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita. Não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar.”
“As pessoas não sabem valorizar as outras hoje em dia. É irônico porque todos querem um pouco de atenção, carinho, motivação, felicidade… mas ninguém está disposto à dar o primeiro passo.”
“É que a minha mão encaixa di-rei-ti-nho na tua cintura, é isso! É uma coisa boba. É uma casualidade. É um detalhe. É isso: quantas mãos e cinturas não se encaixam por aí? Quanta coisa não se encaixa? Mas o meu medo no teu encaixa. Meu dia no teu. Minhas falas nas tuas. Meu passado no teu. E até o que não se encaixa parece propositalmente feito para isso. Como nós: propositalmente destino. Porque encaixa, entende? E eu não entendo como, não sei de onde, não posso te explicar. Essas coisas sem explicação vivem na minha cabeça, inomináveis. Mas quem precisa de nome quando a mão cabe direitinho na cintura? Quem precisa de mais quando até o silêncio se entende? E eu fico dizendo que é só por essas coisas para não ter que admitir que é muito, muito mais. Eu e você: é por muito mais.”